Opinião · 2 de novembro de 2026
Freamunde: quando a inércia de uns dá voz a outros
O Chega levou as obras do Posto Territorial da GNR de Freamunde ao Orçamento do Estado. E a pergunta que fica é simples: onde está a iniciativa de quem governa Freamunde?
O Posto Territorial da GNR de Freamunde continua à espera de respostas. E enquanto quem governa os destinos da nossa terra parece incapaz de produzir avanços concretos, são outros, sem representação política local, que levam o assunto à Assembleia da República.
Quando a iniciativa vem de onde menos se espera
Foi com alguma surpresa que tomei conhecimento, através de uma notícia publicada pelo Jornal Imediato, de que o partido Chega exigiu a inclusão das obras do Posto Territorial da GNR de Freamunde no Orçamento do Estado.
Surpresa não pela importância do assunto, que é inquestionável, mas por quem tomou a iniciativa.
Importa deixar algo perfeitamente claro: este é um espaço independente, sem filiação partidária, e o Chega está longe de ser uma força política com a qual me identifico.

Mas a independência também se demonstra na capacidade de reconhecer o mérito de uma iniciativa, independentemente da sua origem.
E, neste caso, há que reconhecer que uma força política sem representação na Assembleia de Freguesia de Freamunde decidiu dar visibilidade a um problema que afeta diretamente a nossa comunidade.
Enquanto uns têm responsabilidades políticas locais, outros parecem demonstrar maior iniciativa na defesa de um assunto que deveria ser prioritário.
E isso deveria fazer-nos refletir.
Um posto da GNR que merece condições dignas
A segurança é uma das preocupações fundamentais de qualquer comunidade.
Freamunde não é exceção.
Num contexto em que a perceção de insegurança merece crescente atenção, seria expectável que a melhoria das condições do Posto Territorial da GNR constituísse uma prioridade inequívoca.
Falamos de instalações cuja adequação às necessidades atuais merece ser seriamente questionada.
Entre as limitações apontadas encontram-se a alegada inexistência de uma cantina e de salas próprias para a realização de interrogatórios ou outras diligências que exigem condições adequadas de privacidade e segurança.
A confirmarem-se estas limitações, estamos perante uma situação que merece uma intervenção urgente.
Não estamos a falar de luxos ou comodidades dispensáveis.
Estamos a falar de condições de trabalho para os militares da GNR e de condições adequadas para o atendimento e proteção dos cidadãos.
Quem tem a responsabilidade de garantir a segurança da população deve dispor dos meios e das instalações necessárias para desempenhar essa missão com dignidade e eficácia.
É o mínimo que se exige.
E quem governa Freamunde?
É aqui que a questão assume uma dimensão verdadeiramente política.
Não basta reconhecer que o problema existe. Não basta manifestar preocupação ou afirmar que o assunto está a ser acompanhado.
É necessário agir.
E agir implica reivindicar, insistir, reunir com as entidades competentes, apresentar propostas e, sobretudo, prestar contas à população sobre os resultados dessas diligências.
Que iniciativas concretas foram desenvolvidas pelos responsáveis políticos de Freamunde para garantir a requalificação do posto da GNR?
Que reuniões foram realizadas?
Que compromissos foram assumidos?
Que prazos foram estabelecidos?
E que resultados foram efetivamente alcançados?
Se essas diligências existem, devem ser publicamente conhecidas.
Porque, na ausência de informação e de resultados visíveis, aquilo que transparece é uma preocupante falta de iniciativa.
Naturalmente, a decisão de financiar e executar intervenções em instalações da GNR não depende exclusivamente da Junta de Freguesia.
Mas isso não significa que os nossos representantes políticos estejam dispensados de reivindicar, pressionar institucionalmente e defender os interesses da população.
Representar Freamunde não é apenas gerir o quotidiano. É também saber exigir aquilo de que a cidade necessita.
E, neste caso, parece faltar precisamente essa capacidade de reivindicação.
Quando a falta de afirmação abre espaço à chacota
Há ainda outro aspeto que merece reflexão.
Na sequência da notícia, surgiram comentários nas redes sociais que desvalorizam a necessidade de um posto da GNR em Freamunde, recorrendo ao argumento de que já existe outro posto nas proximidades.

Comentários que, mais do que discutir seriamente a organização territorial das forças de segurança, acabam por colocar em causa a legitimidade das reivindicações da nossa cidade.
É evidente que a localização e distribuição dos postos da GNR devem obedecer a critérios técnicos, operacionais e de segurança pública.
Mas reduzir a discussão à proximidade geográfica de outro posto é ignorar questões essenciais, como a população servida, a área de intervenção, os tempos de resposta e as necessidades operacionais.
Freamunde não tem de pedir desculpa por reivindicar condições dignas de segurança para os seus habitantes.
E não deve aceitar que uma reivindicação legítima seja transformada num motivo de chacota.
Contudo, também importa reconhecer uma realidade desconfortável.
Quando os responsáveis locais não conseguem afirmar publicamente as necessidades da cidade, quando os problemas se arrastam e quando faltam resultados concretos, abre-se espaço para que outros desvalorizem as nossas reivindicações.
A falta de afirmação política tem consequências. E uma delas é permitir que Freamunde seja tratada como uma preocupação secundária.
O mérito não tem cor partidária
Não tenho qualquer dificuldade em reconhecer que, neste caso, a iniciativa noticiada merece ser valorizada.
Mesmo partindo de uma força política com a qual não me identifico.
Porque o interesse de Freamunde deve estar acima de simpatias, antipatias ou conveniências partidárias.
Naturalmente, apresentar uma exigência política não é o mesmo que garantir a execução de uma obra.
Importa perceber se esta iniciativa terá consequências concretas, se será acompanhada de propostas formais e se resultará efetivamente na disponibilização de financiamento.
Mas, pelo menos, o problema foi colocado na agenda política nacional.
E isso merece ser reconhecido.
O que não merece reconhecimento é a passividade de quem, tendo responsabilidades de representação local, não consegue demonstrar resultados à altura das necessidades da cidade.
Freamunde precisa de respostas, não de resignação
A questão é simples.
O Posto Territorial da GNR de Freamunde reúne as condições necessárias para servir adequadamente a população e os militares que nele trabalham?
Se não reúne, que intervenções estão previstas?
Existe algum projeto de requalificação?
Há financiamento identificado?
E, sobretudo, qual é o calendário para a resolução do problema?
São estas as respostas que os freamundenses merecem conhecer.
Por isso, fica um pedido público à Junta de Freguesia de Freamunde:
Esclareça que diligências foram realizadas junto das entidades competentes, que compromissos foram obtidos e quais os próximos passos para garantir condições dignas ao nosso Posto Territorial da GNR.
Não se exige à Junta que tenha competências que não lhe pertencem.
Exige-se que exerça plenamente aquelas que tem, incluindo a representação e defesa dos interesses da comunidade.
Porque Freamunde precisa de representantes que saibam reivindicar, que não se resignem perante a ausência de respostas e que compreendam que a defesa da nossa terra exige muito mais do que boas intenções.
É particularmente preocupante quando uma força política sem representação local consegue dar visibilidade a um problema que deveria estar permanentemente na agenda de quem nos representa.
E, se isso não constitui motivo de reflexão para os responsáveis políticos de Freamunde, então temos um problema ainda maior do que as condições do posto da GNR.
Freamunde não precisa de quem se limite a ocupar cargos. Precisa de quem saiba exercer responsabilidades.
Freamundense de berço. Bairrista por convicção. Independente por princípio.
